domingo, 30 de maio de 2010

Carpaccio de coração

A maior parte dos meus amigos seguem enfastiados. Demoraram tempo a conseguir entrar no restaurante mais badalado, trabalharam para garantirem a conta paga no fim e esmeraram-se na apresentação a ponto de que, parece-me, com tanto afinco esgotaram a atenção em pormenores que em nada abonam a capacidade de apreciar o mais importante, a refeição. Esta, recuada perante tantos cuidados no que a rodeia, ficou caída entre talheres e sugestões externas. Tornou-se até de difícil digestão quando assumem que esperavam mais. O truque, dizem-me, passa por fingir. Fingir que se degusta o prato como se fosse a última refeição no cárcere de um condenado. Fingir que o pouco é imenso e sobra. Fingir como forma de não permitirem que a cruel realidade lhes exiba a precariedade do que estava para lá da porta que ansiaram.
Discordo deles, sou contra a técnica usada e mesmo sabendo dos olhares reprovadores, como se fosse louco, desafio-os a divorciarem-se.

4 comentários:

Pirilampo Mágico disse...

Concordo contigo

J disse...

Caro homem,

Em primeiro lugar, queria dizer-lhe que pode agradecer à sua amiga Kitty Fane pela publicidade que lhe trouxe, cujos efeitos já deve concerteza ter observado.
De facto, fiquei curiosa para ler o seu blog e mais curiosa fui ficando à medida que fui descobrindo os seus posts.
Queria dizer-lhe que deveria pensar na possibilidade de reunir estes textos num livro, porque a maneira como escreve é absolutamente arrepiante. E tem certamente muito mais qualidade de escrita do que muitos bloggers que publicam por aí. Mesmo que por vezes recorra a alguma "ajuda", que penso que não precisaria de todo, pois está tudo aí dentro.
Parece-me que é uma alma atormentada. Mas as suas assombrações cultiva-as com carinho. Necessita delas. Não vêm de quem supostamente sente falta para si, mas de si para si próprio, pois parece-me que já existiriam bem antes de qualquer mulher ter existido em si.
O modo como vê as mulheres... Essa busca incessante de corpos, de almas que despreza... Para quê? Você gosta de ser miserável e essa é apenas mais uma flagelação à qual se impõe...
Mas não se preocupe, a miserabilidade faz parte da condição humana, por isso, todos o somos. Os seus amigos casados, os mal-casados, os solteiros, os solitários, os seus seguidores, você, eu. Portanto, não está só, caro homem. É apenas mais um homem.

P.S. E bem hajam os anónimos.

Malena disse...

Carpaccio é extremamente saboroso, mas sabe a pouco, muito pouco...

june disse...

Por vezes aquele instinto animal sem filtro cerebral mesmo que fique mal...é a nossa verdade..
E irmos contra quem somos, seria o mesmo que representar no palco da vida, e de actores está a vida cheia...
Prefiro um espreguiçar de qualquer animal perdido, a um gesto manipulado para parecer bem...