terça-feira, 1 de junho de 2010

Nem a cola mais forte pode refazer o que a dada altura se quebrou

Estou de directa, esta noite não dormi. Não seria grave não dormir pudesse abdicar dos pensamentos que me invadem noite fora, se não ficasse horas a olhar para a chávena de leite que perdeu numa noite de tempestade emocional a sua parceira, a que dizia "amor", parti essa e fiquei com a que diz "eterno". Faz sentido, na minha lógica o eterno. Eterno destroçado, eterno apaixonado, eterno amargurado. Se tivesse ficado intacta a outra, já não havia correspondência possível, só se fosse em amor perdido, amor esgotado, amor-zero, antes assim. Estas chávenas comprou-as ela à falta de variedade no meu pequeno armário em que constam copos, canecas e frascos de compota que nunca uso, mas nada que pudesse acompanhar um pequeno-almoço ou um filme a dois. Fiquei feliz quando as juntei e li "amor eterno", ganhei a mania de as arrumar juntinhas como se só assim fizessem sentido, mesmo quando as deixava a escorrer depois de lavadas, permaneciam juntas. Como se ela fosse uma e eu a outra, sempre juntos. Mas veio o dia em que não me entendia, em que as palavras que me saiam da boca eram serpentes atiçadas, em que o coração mirrou e sumiu e acho que uma rocha tomou o seu lugar... nesse dia, a partir do qual soube que seria sempre a perder, entreguei à parede uma das testemunhas de quão doces eram os seus lábios. Quase ia a outra mas o choque perante os cacos foi maior. Ali fiquei imóvel a vê-los e a pensar que nunca mais as minhas chávenas fariam uma expressão juntas, apenas uma palavra solta e desconexa.
Cacos, ficou tudo bem explicado pelos cacos. A minha vida, sobretudo.

14 comentários:

jacklyn disse...

E não seria mais útil quebrar também a outra? As memórias dos cacos são tão cortantes como eles.

Anónimo disse...

O teu blog foi referido aqui:

http://netspice-vidasombria.blogspot.com/

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Tal como desconfiava, gostei. Passa lá no meu blogue. Beijos

Daniel Monferrato disse...

Caro colega de lista,

Gostei do blog. Só podia, para estar na lista da Isilda!

Nota: e também cá está o comentário anónimo deixado pela tipa!

ahlebA aiaM disse...

Completamente de acordo. Por muito que o esforço seja e como alguém canta: "O que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira".

Gosto do teu blog

Saudações!

Rhiha disse...

acabei de entrar no blog, ainda não li mais nada. parte a outra também!

Anónimo disse...

Cheguei aqui graças ao blog da Kitty Fane e adorei. Parabéns. :D

CeliaAlma disse...

PARTIR TUDO, ARRUMAR OS CACOS E VOLTAR A DEIXAR ESPAÇO PARA NOVAS CANECAS. OK?

june disse...

Palavras leva o vento...
Está nas acções o que queremos e precisamos...Palavras...Bouf...
Direi aqui que amo-te...acreditas? Nem vale a pena...
Vento...
Beijos

Silvia disse...

Oh Homem! Parta a louça toda! Eu já parti e recomendo :)

@tt disse...

Eu gosto de partir loiça (mas por vezes falta-me a dita... coragem!).



=))

Sofia disse...

Tens email?

ab disse...

fantástico.

giulieta disse...

quase que podia ter sido eu a proferir tais palavras.
..o problema é que não se é capaz de partir, a réstia de recordação de quem neste estado nos deixa é maior que nós, mais forte do que a porcelana de que é feita a eternidade, nem que seja na nossa memória. a saudade que deixa. sensação de perdidos.

vou voltar *