A procissão seguia, de onde me encontrava distinguia rostos mas não expressões, tal como a tua face que ao longo destes anos se tem desvanecido, passou de humana a uma imagem quase sacra daquelas figuras nas capelas mais antigas, uns lábios finos sem grande polpa, uns olhos grandes fixos numa convicção e uma tez pálida, vítrea, sem rubores que podiam ser emprestados por um sangue viciado em emoções. Sentia-me cansado, não porque caminhasse, permanecia parado, mas o burburinho e as orações em redor eram por si só suficientes para separar as pontas da já de si frágil corda que resistia em unir a minha integridade ao mundo dos vivos, sentia-me capaz de num suspiro mais convicto embarcar com a velha senhora para cheirar a brisa do outro lado do rio, prometesse-me ela uma ausência de multidão. Uns quantos desmaios, mãos em aceno, lenços brancos e velas, velas para saudar o senhor. Por momentos doeram-me palmas de mãos, peitos de pés, enfraqueceram-se-me joelhos, não ficou gota de suor retida sob a pele, saí de mim e a mim voltei sem que o corpo tivesse seguido a lado algum, caí de três andares e o solo soube-me bem, tinha uns cacos onde antes sentira dôr e as pernas torpes sem reacção, por cima de mim no andor desafiando a gravidade numa cruz, pregado por estacas que cumpriam os requisitos das estacas que eram, seguia a representação máxima do sofrimento que sentia, convicções, motivos e almas diferentes, sim, mas a dor, essa estava lá toda, numa máscara de olhos largados ao céu, de boca inconformada e sulcos de uma paixão incompreendida.
Sem ti, venha a barca então.